As filhas de Lucy

Lucy Tertulina se casou aos 18 anos com um marido que tentou protegê-la de qualquer perigo que alguém que não enxerga pode enfrentar. Não andava de bengala, não saía de casa para resolver nada, era totalmente dependente de outras pessoas. A baixa visão, descoberta aos 7 anos, foi diagnosticada pelos médicos como retinose pigmentar, doença degenerativa que costuma avançar na adolescência, início da vida adulta. Exatamente o que aconteceu com ela.

Teve uma época que eu enxerguei alguma coisa mas, a partir dos 18 anos, ficou bem complicado, aí eu não conseguia mais, só percebia vultos, claridade.

Da união, nasceram duas filhas, Maisa e Lais. A vida de Lucy tinha tudo para continuar assim, sem grandes desafios, até que um acidente fatal de carro com seu esposo mudou completamente sua maneira de agir. Sozinha e com as filhas para criar, ela precisava reagir.

Além do sofrimento pela perda do marido, Lucy precisou lutar para não perder a guarda das filhas, que ficariam com os sogros. Depois de um acordo entre advogados, ela conseguiu ficar com as crianças e, a partir disso, tornou-se mais forte para ser independente. Procurou a Associação Caruaruense de Cegos (Acace) e aprendeu o braile. Foi um divisor de águas.

Eu gosto de colocar que a minha vida teve dois processos, antes e depois da Acace. Antes eu não tinha identidade, eu era “a” esposa, não me sentia gente. E, depois que eu procurei a associação, tiveram pessoas que me acolheram.

Foto da fachada da Associação Caruaruense de Cegos.

A Associação Caruaruense de Cegos é uma associação civil, filantrópica, de assistência social, sem fins lucrativos e fundada em 2004. Com abrangência regional, ajuda pessoas com deficiência visual, cegas e/ou com baixa visão, através da promoção e garantia de direitos, difusão do braile e da informática, além de cursos profissionalizantes como o de massoterapia, inclusão através do esporte, e na promoção do lazer e da cultura.

Em casa, o cuidado era redobrado. As atividades comuns que uma mãe faz pelos filhos precisavam de atenção extrema de Lucy, para provar para ela mesma e para os sogros que era capaz de criar as filhas.

Foto de Lucy na maternidade. Está ao telefone. Um bebê aparece deitado.

Sempre dei banho, cortei as unhas, cozinhei para elas. Minha irmã veio morar próxima a mim para dar suporte, e minha filha mais velha me ajudou muito a cuidar da mais nova também. Mas eu faço tudo dentro de casa: lavo, passo, cozinho, faço bolo e coloco no forno. Às vezes corto um dedo, mas isso acontece com todo mundo.

Lucy percebeu também que, somente com a pensão do marido, não daria para sustentar a família bem. Antes do casamento, ela era tratada de maneira muito parecida pelos pais, que não aceitavam sua condição. Tentaram de tudo para que ela pudesse voltar a enxergar. Fez cirurgias no Recife e em João Pessoa (PB), até viajou para Cuba para realizar procedimentos que poderiam contornar o problema, algo que não ocorreu. Superprotegida, ela não aprendeu o braile na escola.

Conhecer a associação a fez atentar que o indivíduo com deficiência visual também pode estudar e trabalhar. Somente quando ficou viúva, voltou aos estudos, cursou pedagogia, fez um curso técnico de massoterapia e hoje trabalha feliz com isso. Diz que a primeira grande vitória de sua vida sem o marido foi conseguir sair de casa, cruzar a rua, ir até a esquina e chegar sozinha à padaria para comprar pão para as filhas, algo que ela nunca havia feito antes.

Então foi aí que consegui organizar minha vida, criar minhas filhas, com muito sacrifício, porque é muito complicado você dar conta de duas filhas sozinha sendo pessoa com deficiência, mulher. É muito complicado, mas estamos conseguindo.

Role a página para ver como Lucy descreve sua visão:

Visão descrita por Lucy

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Expediente

26 de setembro de 2016

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