A sabedoria de Sonia

Quase sete décadas de vida e Sonia Pereira não se cansa de aprender. A perda da visão, sequela do sarampo antes dos dois anos de idade e que a fez se considerar praticamente cega de nascença, não diminuiu a sede por conhecimento da hoje mulher idosa que brigou com a mãe para poder estudar.

Eu fui criada assim, numa redoma dentro de casa. Tudo dentro de casa estava bom. Quando falava em sair pra rua, não podia.

O crescimento não foi nada fácil. Além de não enxergar mais, Sonia também passou um período sem conseguir andar, para o desespero da mãe, uma mulher sem instrução formal, com 16 filhos para criar, mas que tentou fazer o que pôde para ajudar a filha.

Ela ficou preocupada e pensou que, além de cega, eu ia ficar aleijada. Ensinaram pra ela dar massagem com óleo de pequi que eu podia voltar a andar. Tudo o que ensinavam, ela fazia. Ela foi aplicando óleo de pequi e dando massagem, e eu voltei a andar.

A infância foi vivida em sua residência em Afogados, bairro popular da Zona Sul do Recife, mesmo local em que mora até hoje com uma irmã mais nova, o cunhado e a cadelinha Laika. Brincou muito como qualquer outra criança, jogando bola, pulando corda. Mas a vontade de estudar só aumentava dentro de Sonia, que, com 10 anos, nunca havia pisado em uma sala de aula.

Escutava o rádio e a TV para saber o que se passava no mundo. Ouvia música, notícias, novela, sabia o horário todo da programação. Mas o sonho era ler um jornal. O que a mãe fazia, na tentativa de ensinar algo a ela, era uma espécie de sabatina diária para testar se ela havia decorado exatamente o endereço onde morava para, caso um dia se perdesse na rua, pudesse pedir a alguém para levá-la de volta em segurança.

Foi somente na década de 70, quando Sonia já estava no fim da adolescência, que a chance de estudar, de fato, apareceu. Um tio que trabalhava na televisão viu um jovem cego ler uma bíblia em braile durante um programa evangélico e lembrou-se da sobrinha com sede por conhecimento.

Ele viu o rapaz pegar a bíblia e começar a ler com os dedos e ficou admirado. Foi perguntar como é que ele conseguia ler, aí ele disse que tinha aprendido a ler no colégio.

Levada pela irmã, Sonia conheceu o rapaz que lia a bíblia com as mãos, matriculou-se no colégio em que ele estudava e passou a, finalmente, estudar. Aos 22 anos.

Comecei a me integrar, conhecer outras pessoas, outros costumes. Eles cantavam, brincavam, namoravam, casavam, separavam. Chegava em casa e dizia pra minha mãe 'eles vivem como gente, viu?', mas ela dizia 'não, mas você só vai estudar, não vai fazer nada disso, só vai estudar'.

Sonia ouviu os conselhos da mãe. Seu foco era nos estudos e nas relações sociais que construía através dele. Não se interessou em desenvolver relacionamentos amorosos, nunca quis ter alguém. Sua sede por estudos a fez terminar rapidamente o Ensino Fundamental e o Ensino Médio, por meio de um sistema seriado em que se faz várias séries em um único ano. A faculdade aconteceu quando Sonia já estava na casa dos 50 anos, e a pós-graduação logo em seguida. Hoje é formada em História e especialista em História do Nordeste. Guarda com cuidado o álbum de formatura com as fotografias tiradas com os colegas de turma. As lembranças ficam na memória sem imagens.

Foto de Sonia durante a formatura. Veste beca e o chapéu de formanda.

Hoje, aos 68 anos, a idosa se sente plena sendo do jeito que é, com as conquistas que fez.

Me sinto bem, mas geralmente, para a sociedade, a pessoa idosa é carente de família, de cuidados e das coisas boas. Há preconceito, mas eu não sinto. Para mim, ser idosa, pobre e deficiente é a mesma coisa. A gente tem que costurar com as linhas que tem.

A velhice costuma trazer benefícios como a paciência e a calma, porém o corpo passa a apresentar os sinais de quem quer parar. Sonia não teme a morte, mas a forma como ela pode chegar.

Tenho receio de esquecer as coisas ou ficar doente em cima de uma cama. Se eu puder escolher, prefiro ir embora antes disso. Mas a minha saúde está bem, acho que vou até os 100.

Viver, do jeito que ela vive, a faz uma vencedora. A maneira como fala da vida, sem melancolias ou arrependimentos, transforma Sonia numa sábia mulher, com um poder extraordinário que nenhum super-herói se vangloria de ter, que é o da humildade.

A sabedoria popular diz que devemos plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho para sermos felizes e realizados mas, para mim, a realização é outra. Acho que ter chegado até aqui como eu fiz, mesmo sem ter feito nenhuma dessas três coisas. Não me arrependo de nada e não invejo quem conseguiu ou está persistindo.

Faça o teste de acuidade visual

Instruções:

  • Posicione-se na frente do monitor em uma distância de cerca de 5 metros;
  • Tape o olho esquerdo com a mão;
  • Se normalmente usa óculos ou lentes de contato, mantenha-os;
  • Comece lendo as letras da primeira linha até chegar nas menores;
  • Repita o processo com o olho direito;

Resultado:

Se você conseguiu ler até a última linha, parabéns! A sua acuidade visual é de 100%.

Se não conseguiu ler até a última linha com ambos os olhos, você provavelmente precisa de uma correção óptica.

Independentemente do resultado obtido, consulte um oftalmologista regularmente.

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Expediente

26 de setembro de 2016

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