A alegria de Angelle

Uma vida inteira de imagens, cores e formas, vendo as nuances do dia, os tons da noite. Angelle Freitas, 33 anos, enxergava tudo. Até que, em um dia qualquer de dois anos atrás, a visão falhou. Voltava do trabalho, uma clínica em que atuava como biomédica, quando tudo foi ficando embaçado no olho esquerdo. Uma visita à oftalmologista e a constatação de sangramentos na retina, sequelas de um diagnóstico de diabetes desde os 19 anos. Era a retinopatia diabética.

Uma cirurgia iria contornar o problema sem maiores transtornos, mas não foi o que aconteceu. A visão, que deveria voltar dentro de três meses após o procedimento, não voltou e Angelle percebeu que seu caso era mais grave do que imaginava.

A médica disse que deu alguma coisa errada que não era para ter dado e estava achando que era algum problema renal que eu tinha, que deu o problema na minha visão, que já era para estar boa novamente, e me encaminhou para um nefrologista. Após alguns exames, eu descobri que tinha insuficiência renal crônica. Meus dois rins juntos só funcionam 6%.

A batalha para fazer com que o sistema renal trabalhasse precisou do auxílio da hemodiálise, que ela faz três vezes por semana. A visão, perdida primeiramente no olho esquerdo, também se apagou no direito no fim de 2015, após um novo sangramento e descolamento da retina. Hoje, ela só tem a percepção da luz e sabe que seu quadro é irreversível.

Foto de mãos que fazem o teste de glicemia.

Diabetes não controlada pode levar a uma série de sequelas para o indivíduo, inclusive doenças que afetam a visão. Camada do olho em que estão células que recebem luz, processam imagens e levam todas as informações visuais ao cérebro, a retina passa a sofrer com o excesso de açúcar no sangue, que acaba deteriorando os vasos sanguíneos da região, provocando edema. A pessoa com rinopatia diabética começa a perceber um embaçamento da visão, condição que pode progredir para a perda parcial ou até total da visão.

Ao ficar sem enxergar, Angelle também perdeu seu instrumento de trabalho. Formada em biomedicina e pós-graduada em análises clínicas, ela concentrava nos olhos todo o seu todo conhecimento em microscópios. Sem eles, precisou se afastar da profissão, algo que poderia derrubar emocionalmente muitas pessoas, mas não Angelle. A alegria de viver dela transparece até nos olhos que não funcionam mais como antes.

Eu fui afastada, ainda estou no benefício. Fui afastada primeiramente por conta da hemodiálise, pois não teria como fazer três sessões por semana, faltar três vezes o meu trabalho. Depois que eu fui perdendo a visão, aí já fui afastada direto. Ainda estou na pendência do INSS para saber qual rumo que vai tomar agora, se vou ser aposentada ou não. Depende deles lá, não mais de mim.

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Clique no áudio para ouvir a fala de Angelle:

Mesmo com a iminência da aposentadoria, Angelle não pensa em ficar parada em casa, sentindo a vida passar. Empolga-se bastante ao pensar nos planos que terá daqui para frente. Sonha em fazer um mestrado na área em que trabalhou por tantos anos ou passar em um concurso público. Assim que recebeu o diagnóstico da cegueira, começou a se movimentar para aprender coisas novas e bastante necessárias para sua nova condição. Aulas de braile e mobilidade estão fazendo com que ela entenda o universo da pessoa com deficiência visual.

Memória visual

Uma das mudanças mais bruscas na vida de quem passa a não enxergar é conviver com a memória visual - e a perda dela. Angelle diz ainda se lembrar muito bem dos rostos dos familiares. A sobrinha, hoje com 9 anos, é uma das pessoas que ela não terá mais a chance de saber como será quando crescer.

Na última vez que a vi, nitidamente, ela era muito parecida comigo. Mas hoje ela cresceu e as pessoas dizem que ela está a cara da mãe. O sorriso do meu namorado também é uma coisa que eu sinto muita falta. Chorei muito no início por causa dessas coisas, mas já passou.

O namorado, ou “namorido”, como ela gosta de chamar carinhosamente, mora com ela em um simples apartamento próximo à Praia de Candeias, em Jaboatão dos Guararapes, no Grande Recife. Hudson de Oliveira é operador de carga e descarga em uma rede de supermercados. Natural do Rio de Janeiro, ele deixou a vida carioca para morar com Angelle após se apaixonar por ela em Pernambuco.

Os dois não se desgrudam nem um minuto. Assim como a família de Angelle, Hudson se engaja para mostrar os caminhos, descrever o que se passa nos programas de TV, escolher uma roupa bacana que ela possa vestir e se sentir bonita. Ele tem, como bem diz Saramago em “Ensaio sobre a Cegueira”, a “responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam".

A gente começa a assistir a um filme e ele já vai me descrevendo as cenas, é uma coisa automática.

A força de vontade e a alegria de viver constantes de Angelle dão ânimo e a estimulam a ajudar outras pessoas que passam por situações parecidas.

Eu espero ser muito feliz, do jeito que eu sou, fazendo as coisas que eu gosto, trabalhando e, de preferência, podendo ajudar outras pessoas que passam pelo mesmo problema, para que elas vejam que não é o fim da vida. Tudo é uma questão de costume. Eu tenho o apoio da minha família, mas tem gente que não tem, não tem ninguém. Eu não mudei nada, continuo fazendo as mesmas coisas, saindo do mesmo jeito, porque eu adoro sair. Todo mundo aqui na minha casa fica “tirando onda” dizendo que eu sou a cega que mais anda, porque eles dizem que eu saio mais que o povo daqui que enxerga. Eu quero ser feliz, enxergando ou não.

Ao contrário da maioria das outras histórias, que o namorado ou namorada te deixa porque você perdeu a visão, eu não tenho do que reclamar. Ele abandonou tudo para ficar comigo.

Entrevista

Foto de Antônio Muniz. Ele sorri e está de óculos.
Antônio Muniz é presidente da Organização Nacional de Cegos do Brasil (ONCB)

A importância da inclusão e da acessibilidade para os cegos

No Brasil, aproximadamente 6,5 milhões de pessoas possuem deficiência visual. Em Pernambuco, são 100 mil, entre cegos e pessoas com baixa visão. O presidente da Organização Nacional de Cegos do Brasil (ONCB) e vice-presidente da Associação Pernambucana de Cegos (Apec), Antônio Muniz, aponta que as pessoas com deficiência visual estão conquistando mais espaço com luta, mas ainda falta muito para que avancem na inserção completa na sociedade.


NE10 – Quais são as principais dificuldades do cego no Brasil hoje?
Antônio Muniz – São muitas leis que poderiam beneficiar as pessoas cegas mas, na prática, ainda não garantem quase nada. Na educação, o livro didático transcrito para o braile costuma chegar com atraso nas escolas, quase no fim do ano. O Governo Federal manda um número muito grande de equipamentos sofisticados de impressoras braile para as escolas, mas a formação para o uso desse tipo de equipamento não acontece e o resultado é que as máquinas ficam encaixotadas e sem utilidade. Fico ouvindo os governantes falando de tablets em sala de aula, mas o curioso é que esses equipamentos não têm acessibilidade para o aluno cego ou com baixa visão. Eles dizem que oferecem a todo mundo, mas os cegos não estão nesse “todo mundo”. Outro ponto é a área da saúde. Com o grande número de impressoras braile no Brasil, o médico poderia passar a receita médica e o paciente com deficiência visual recebê-la em braile. O curioso é que os remédios já trazem, na maioria das vezes, o nome dos medicamentos em braile, mas o governo não acompanha esse avanço e a pessoa cega não consegue identificar a receita, que não vai nem pelo e-mail do paciente. A outra política nefasta é a do trabalho. Não existe praticamente nenhuma política para cegos e pessoas com baixa visão com relação ao emprego. Há a Lei de Cotas, mas as empresas só aceitam o que eles chamam de “deficiência leve”. Outro dia uma empresa solicitou, na Apec, candidatos com deficiência visual para ler bula de remédio, algo que nem uma pessoa com baixa visão faz. Não sei se isso é desconhecimento ou má vontade.
NE10 – O que falta melhorar na estrutura das ruas brasileiras para que os cegos possam andar com mais segurança?
A.M. – As calçadas vão ser pelo menos acessíveis no dia em que for aprovada uma Lei Federal que assegure que elas não são do dono da casa, mas sim do poder público, e que vai poder padronizá-las. Sem isso, não tem jeito, já pesquisei, conversei com diversos parlamentares federais, mas não existe a lei, nada nessa direção. Infelizmente é uma área de campo minado, há muitos interesses envolvidos, mas a gente tem que lutar. No Recife, nós temos um retrocesso com relação à acessibilidade nas ruas. Até 2012, existiam cerca de 150 semáforos sonoros. De lá pra cá, esse número caiu para 50. Eles não estão sendo repostos. A peça quebra e a CTTU não repõe. E aqui na Apec a gente reivindica desde que foi implantado o BRT da linha Leste-Oeste, no Recife, que se coloque semáforo sonoro lá, que nosso pleito seja atendido.
NE10 – Quando e como a Apec foi fundada?
A.M. – Foi fundada em 5 de fevereiro de 1983 em plena efervescência da redemocratização, sou sócio-fundador. Na Apec, somos quatro sócios fundadores: José Diniz Junior (presidente), eu, como vice-presidente, Sonia Pereira da Silva (conselho fiscal), Lourinaldo Ferreira de Lima (associado). Somos 1.280 associados, de todo o Estado. O objetivo da Apec é de profissionalização das pessoas cegas e luta por direitos. Temos um convênio com a Prefeitura do Recife para ensinar o braille, a partir de adolescentes, já que as crianças aprendem na rede de ensino. Trabalho de profissionalização e busca de vagas de emprego. Dentro de geração de renda, temos o curso de massoterapia, prestamos serviços a empresas. Também promovemos a transcrição de livros, cardápios e outros produtos literários. Temos uma mensalidade social e a venda de produtos usados por cegos, como material de escrita, que vendemos para o Brasil e exterior. Desde a fundação, passaram pela escola e também adquiriram conhecimento na área profissional aproximadamente 1.200 pessoas cegas e com baixa visão.
NE10 – Qual a importância de associações como a Apec para pessoas cegas?
A.M. – A Apec representa a porta de entrada para um novo jeito de ver. As pessoas perdem a visão, ficam desesperadas e a Apec tem ajudado muito porque quem vem pra cá descobre que a vida continua, alguns mais demoradamente ou mais rapidamente. É um processo de readaptação de uma nova condição de vida.

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Expediente

26 de setembro de 2016

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