Copiar a Alemanha é utopia para o futebol brasileiro

Wladmir Paulino
Do NE10

Primeiro foi o massacre de 7x1. Agora, com a conquista do tetracampeonato no Maracanã, o futebol alemão, definitivamente, virou modelo de sucesso - antes já era de eficiência. Por isso, o coro de torcedores e boa parte da imprensa apontam para importar o que os germânicos fizeram para tirar os pentacampeões da mesmice onde se encontram desde 2006. É triste dizer isso, mas o que serviu para a Alemanha não vai servir para o Brasil. E não é só porque a Federação Alemã atua diretamente com os clubes e aqui isso passa muito longe. Vai bem mais além. Vai na cultura brasileira, não só do futebol, mas na de gestão pública, que se reflete no futebol. No Brasil não há projeto de construção. O que impera é projeto de poder.

A TV Globo exibiu novamente neste domingo (13) uma reportagem contando os segredos dos alemães. Um dirigente afirmou que resultado em Copa do Mundo não influenciaria o trabalho. O objetivo era cuidar do futebol e das crianças. É aqui que o vento muda. No Brasil, o projeto da CBF é ganhar a Copa. É o poder de mostrar que somos os campeões.

E assim é disseminado nas federações estaduais, onde a perpetuação no comando é regra. Dissica Valério Thomaz, do Amazonas, está no comando há mais de 20 anos. Na Paraíba, Rosilene de Araújo Gomes, da Paraíba, foi deposta pela Justiça em abril deste ano após acusações de ilicitude no pleito que a elegeu. Marco Polo del Nero está na Federação Paulista desde 2003 e só vai largar o osso para assumir a CBF em abril de 2015. Heitor Costa, de Rondônia, está desde 1989. Em Roraima, o dirigente é Zeca Xaud, desde 1974, quando a entidade foi criada. Um dos mais jovens no cargo é o mandatário pernambucano, Evandro Carvalho. Ele assumiu o posto em 2011, quando o titular, Carlos Alberto Oliveira, faleceu. Ao morrer, Oliveira já contava 16 anos no poder.

Isso sem falar na própria CBF, que teve Ricardo Teixeira à frente entre 1989 e 2012. Acuado por diversas acusações de corrupção, inclusive com a participação de seu ex-sogro, João Havelange, renunciou.

O vício estende-se ao clube. E não é preciso ir muito longe. O trio de ferro pernambucano, Sport, Náutico e Santa Cruz, já conta com cem anos ou mais. E durante todo esse tempo um grupo de oposição venceu apenas UMA eleição em cada um.

Diante de tantas constatações, qual seria a receita para o Brasil? Entregar-se aos donos do poder e esperar que uma nova geração de Ronaldos, Romários, Gérsons, Didis e Rivaldos - não vamos tocar no nome de Pelé, que é de outro planeta - para ser campeão novamente?

Existem dois caminhos: estudar os que os alemães fizeram e adaptar à nossa cultura.

É duro, mas isso significaria manter os mesmos de sempre no topo, mas ao menos a gestão mais próxima do campo ser entregue a quem entende. Formar treinadores talvez seja o mais urgente, principalmente para as divisões de base. É preciso formar jogadores que não saibam apenas driblar ou destruir a jogada. É preciso entender o jogo, sendo bem básico: onde estão, para onde devem se deslocar e o que fazer quando chegarem lá. Coordenar movimentos, 'driblar' coletivamente ao invés de apenas individualmente.

O segundo caminho é uma mudança maior. Na maneira de pensar. Gerir sem pensar em resultados, apenas na qualidade do que é feito. Mas aí também tem que partir da mentora, a CBF. Criar uma identidade. Chamar clubes e Federações para dialogar, escolher um caminho em que todos possam caminhar: do milionário Corinthians ao São Raimundo, de Manaus. Aplicar a maior parte dos R$ 436 milhões de receita que a Confederação teve no último ano para pulverizar a Granja Comary nos quatro cantos do País.

É caro e o retorno é demorado. O primeiro caminho é urgente, pois é o mínimo. O segundo implica pensar de outra forma, se reinventar. Algo que não combina com sede de poder e arrogância.