Incluir é um dever de todos

Hiperatividade de Gabriel chamou a atenção dos pais
Hiperatividade de Gabriel chamou a atenção dos pais

A segunda gravidez foi uma surpresa para Leonoura Pacheco. Mãe de um menino de seis anos e moradora do bairro de Boa Viagem, ela não estava esperando ficar grávida naquele momento, mas ficou imensamente feliz com a descoberta. Gabriel nasceu saudável. Mas, quando o menino completou 1 ano e 7 meses, Leonoura e o marido começaram a desconfiar que ele poderia ter algum problema de cunho auditivo, pois nunca olhava quando o chamavam e nem falava, apenas ficava concentrado olhando para algo que o interessasse. O fato de ser muito hiperativo também levantou algumas preocupações na família. Após exames que descartaram qualquer problema auditivo, o pediatra sinalizou para Leonoura a hipótese de autismo. “Começamos imediatamente a procurar nos informar mais sobre o assunto. A internet nos deixou muito assustados, mas não desistimos. Mesmo sem um diagnóstico fechado, que só chegou aos 3 anos, o pediatra junto a neurologista recomendaram tratamento multidisciplinar com fonoaudióloga, terapeuta ocupacional e psicóloga”.

Quando o garoto completou 1 ano e 11 meses, a fonoaudióloga recomendou matriculá-lo em uma escola, que ajudaria no seu desenvolvimento cognitivo, sensorial e social. Leonoura ficou apreensiva. “Como uma criança que não fala e não gosta de barulhos se adaptaria numa escola? Achava que ele iria sofrer mais, mas me enganei”. Junto à recomendação, a fonoaudióloga indicou uma escola especial, onde teriam outras crianças com a mesma síndrome de Gabriel. Pelo filho mais velho já estar matriculado numa escola, Leonoura optou por matricular o mais novo na mesma escola, mas antes conversou com a coordenação expondo todas as dificuldades de Gabriel. “O colégio não se opôs em nenhum momento, mas as dificuldades foram surgindo ao longo do ano. A professora não estava totalmente preparada para lidar com o caso dele, mas eu sempre corri atrás de conversar com os psicólogos e coordenadores da escola buscando uma alternativa”. Ela chegou a ser surpreendida com o conselho de que deveria trocar o filho para uma escola menor, que já trabalhasse com crianças especiais. “Mas eu não desisti, fui firme na minha decisão de mantê-lo numa escola regular, pois não seria eu que mudaria meu filho de escola, e sim a escola que mudaria a sua forma de enxergar o diferente”.

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E foi exatamente isso que aconteceu. Aos poucos, o colégio foi contratando profissionais capacitados para lidar com o Transtorno do Espectro Autista (TEA), como a síndrome também é conhecida, suprindo as necessidades e dando a assistência necessária à formação de Gabriel. Essa assistência de profissionais proporcionou que aos 5 anos, Gabriel começasse a dar as primeiras palavras e formar frases curtas. Junto ao desenvolvimento, vieram mais dúvidas. “Eu pensava: será que ele vai se alfabetizar? Será que vai acompanhar a turma? Mas hoje, graças ao olhar especial que a escola deu, ele conseguiu. Ele escreve bem, lê com um pouco de dificuldade mas entende o que lê, e isso é maravilhoso”, conta a mãe do garoto.

Gabriel escreve bem, lê com dificuldade e entende tudo
Gabriel escreve bem, lê com dificuldade e entende tudo

A mestra em educação pela Universidade Federal de Pernambuco e com especialização em autismo Shirley Monteiro acredita que o caso de Gabriel só funcionou graças à tríade escola-família-tratamento. “Nada disso seria possível se não houvesse o comprometimento da família junto a escola em promover a inclusão dele, e esse comprometimento aliado ao tratamento fora da escola pode levá-lo a lugares que no início não se imagina que ele chegaria”. Já Rosa Pereira, ex-professora de Gabriel, acredita que os colegas de classe também foram fundamentais no processo. “No início, as crianças não entendiam muito bem porque ele precisava de uma ajuda, mas elas foram incentivadas a ajudar e se orgulhavam disso. Terminaram sendo as principais mediadoras da inclusão de Gabriel dentro da escola”, conta a professora com orgulho.

Para Leonoura, valeu totalmente a pena mantê-lo numa escola regular. “Não só pelo fato do desenvolvimento do meu filho, mas a oportunidade de capacitar a escola para que ela possa atender a outras crianças com autismo ou outros problemas, fez com que eles enxergassem além, enxergassem um potencial nesses meninos”. Ela acredita que mesmo atingindo resultados, a luta ainda não pode parar. “Os pais aceitando o diagnóstico, buscando uma ajuda cedo e acreditando na capacidade de superação do seu filho, junto a uma escola se capacitando a todo tempo para se adaptar a essas crianças, buscando melhorar as ferramentas de ensino é o primeiro passo. A caminhada é longa, mas cada um fazendo sua parte, conseguiremos atingir nossa meta, que é a inclusão total das crianças portadoras do autismo”.

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Expediente

30 de novembro de 2016

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