Aceitação é o primeiro passo

“Um anjo azul”. É assim que Iracema Mendonça define Júlio, seu filho mais velho, hoje com 7 anos. Moradora de Camaragibe, na Região Metropolitana do Recife, ela teve uma gravidez complicada, devido a um descolamento de placenta logo no início. O menino nasceu de oito meses e precisou ficar internado durante uma semana. Com o decorrer dos meses, ela começou a achar que seu primogênito era diferente, pois ele nunca atendia aos chamados dela e não fazia o que as outras crianças da idade dele faziam, como rolar ou levantar a cabeça.

Quando o filho completou 2 anos e não falava nada, as desconfianças ficaram ainda mais fortes. Iracema fez uma bateria de exames no menino, de audiometria a tomografia e os resultados foram os mesmos. O filho estava normal aos olhos dos médicos, mas não aos olhos dela. A irmã e uma prima de Iracema alertavam dizendo que o garoto deveria ser autista, mas ela estava em estado de negação.

Clique para iniciar o vídeo “Sempre que eu pensava em buscar alguma ajuda, todos diziam que eu deveria esperar o tempo dele, que uma hora ele iria falar e responder aos estímulos normalmente. A fonoaudióloga disse que ele só queria chamar atenção, por conta do irmão mais novo, e que logo ele falaria normalmente, e eu reproduzia aquele discurso, mesmo sem aceitar”, conta a mãe, com uma mágoa perceptível.

Somente aos 5 anos, após uma recomendação da psicóloga, Iracema levou o filho em uma neuropediatra referência no tratamento do Transtorno do Espectro Autista (TEA). O diagnóstico veio curto e grosso: Júlio tinha autismo em grau entre leve e moderado. Com a confirmação, o desespero.

“Depois da consulta, eu entrei no carro e chorei, chorei sem parar. Depois, eu vi que tinha duas opções: permanecer chorando ou buscar alternativas. Ai fui atrás de cuidar dele”.

A partir disso, a vida de toda a família Mendonça mudou, em todos os aspectos. Júlio iniciou um tratamento com uma equipe de médicos formada por psicólogo, nutricionista, neuropsiquiatria, neuropediatra, fonoaudióloga, terapeuta ocupacional, educador físico e de terapeutas treinados na Somar, centro referência no tratamento de crianças com autismo, localizada no bairro da Torre.

Iracema e Júlio driblam preconceito com amor
Iracema e Júlio driblam preconceito com amor

Victor Eustáquio, psicopedagogo especializado em autismo há 18 anos e hoje dirigente da Somar, vê que o estereótipo hoje é um dos maiores problemas na hora de diagnosticar o autismo. “Existe uma cadeia gigantesca de espectros autistas, porém as pessoas só acreditam que uma criança realmente possui o transtorno se ela anda na pontas do pés, se não atende aos chamados ou tem dificuldade na fala. Existem casos raros de autistas que não possuem disfunções cognitivas, por exemplo. O transtorno afeta cada criança de uma maneira diferente. Imagine uma fileira de peças de dominó, onde cada uma é uma função cognitiva. Se eu derrubo apenas as primeiras pedras, isso significa que apenas algumas áreas serão afetadas. Se eu derrubo todas as pedras, significa que todas as áreas foram afetadas. É assim que acontece com o autista: o transtorno pode afetar apenas uma parte como toda a sua vida”.

Carolina da Mota, pedagoga do Centro de Desenvolvimento Infantil, alerta para a importância de definir qual tipo de tratamento é mais adequado para o espectro da criança. “Cada criança requer um tipo de tratamento de acordo com seu grau de autismo. Por isso, existem dois viés no tratamento do transtorno: a terapia comportamental e a terapia desenvolvimentista”. O tratamento adequado utiliza as terapias comportamentais ou desenvolvimentistas auxiliado a uma equipe multiprofissional, como no caso de Júlio. Dentre as terapias comportamentais mais utilizadas estão: TEACCH (Tratamento e Educação para pessoas com Autismo e dificuldades Correlatas a Comunicação), ABA (Análise Aplicada do Comportamento) e PECS (Comunicação por Trocas de Figuras). Já a terapia desenvolvimentista mais famosa é a DIR/Floortime, que usa a brincadeira como método. Utilizar a terapia adequada melhora o prognóstico da pessoa com autismo. Por isso, o quanto antes for observado os sinais e for inserido em uma estimulação, maior será o desenvolvimento deste indivíduo. Estes sinais de alerta podem ser observados até mesmo antes dos 18 meses de idade.

Julio conta com a parceira do seu irmão, Breno
Julio conta com a parceira do seu irmão, Breno

Junto do pai, Júnior, e da avó Iraci, o irmão mais novo foi de grande ajuda no início do tratamento, auxiliando no desenvolvimento da fala e da interação de Júlio com outras crianças, e até hoje permanece sendo o melhor amigo do garoto. “Breno é o principal apoio dele. Está sempre ajudando, ensinando e muitas vezes traduzindo o que ele diz. Tudo o que um faz, o outro quer fazer.”. Apesar de o mais velho não conseguir formar frases complexas, Júlio e Breno tem um entendimento e uma parceria únicos. Sobre o futuro, Iracema espera que o mais novo continue ajudando o irmão. “Não sei se ele vai ter tanta paciência para ajudar, não sei se ele vai mudar mais para frente. Mas eu espero que eles continuem parceiros”.

Perto de completar 8 anos, Júlio cursa o 2° ano e consegue acompanhar as crianças na escola. Apesar de não conseguir falar frases complexas, ele compreende tudo o que se fala e consegue compor frases simples. Sobre o preconceito, Iracema afirma que existe, mas de maneira velada.

"Tenho amigas que brincam com Breno de uma forma, e com Júlio de outra, como se ele fosse frágil. Eu olho e digo: pode brincar com ele da mesma maneira. Antes de ser autista, ele é uma criança e merece o mesmo tratamento que as outras crianças”.

Autismo em números




1 em cada 88
nascidos no mundo possuem o Transtorno do Espectro do Austimo

Em 1943,
o psiquiatra americano Leo Kranner divulgou os primeiros estudos de uma síndrome rara que chamou de autismo.

Os 3 pilares
do autismo foram baseados nos estudos de Kranner: deficiência no desenvolvimento da linguagem, interação social pobre e interesses e movimentos repetitivos.


As 3 terapias
mais utilizadas: TEACCH (Tratamento e Educação para pessoas com Autismo e dificuldades Correlatas a Comunicação), ABA (Análise Aplicada do Comportamento) e PECS (Comunicação por Trocas de Figuras).


A incidência é de 4 meninos portadores do Transtorno de Espectro para para cada 1 menina. Por isso, a cor azul


Em 2007,
a ONU estipulou o dia 2 de abril como o Dia Mundial da Conscientização do Autismo.

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Expediente

30 de novembro de 2016

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