A cidade
Santa Cruz do Capibaribe, onde se respira confecção e negócios

Venda de roupas em Santa Cruz (Foto: Luiza Freitas)

Mesmo um forasteiro desavisado entende rápido que é da confecção têxtil que vive Santa Cruz do Capibaribe. Seguindo pelo Agreste pernambucano, já próximo à Paraíba, à paisagem de serras ao longe, vegetação com cores que vão do cinza ao verde vivo e alguns animais perdidos somam-se os outdoors com anúncios de roupas. Muitos. Com modelos famosos ou não, estampando apenas o nome da marca ou a imagem do produto, eles sinalizam que a vista apresentada pela PE-160 será deixada para trás. Quando a estrada entra na área urbana do município onde vivem cerca de 97 mil habitantes - passando agora a se chamar Avenida Prefeito Braz de Lira e, mais adiante, Rua Bela Vista - é que se entende que o espírito da cidade não pode ser sentido apenas na textura do algodão: Santa Cruz é, em sua essência, uma cidade empreendedora.

A economia que hoje movimenta junto às demais cidades do polo de confecções têxtil de Pernambuco R$ 1,1 bilhão por ano, deu os primeiros passos por volta da década de 1940, quando revelou-se outra característica importante da cidade: o gosto pelo trabalho. Foram as mulheres que, cansadas de cuidar apenas da casa e dos filhos e proibidas de trabalhar fora, decidiram procurar uma nova ocupação e fonte de renda. Começaram, então, a confeccionar peças feitas com os retalhos trazidos por comerciantes que iam ao Recife, distante 192 quilômetros, vender galinhas e queijo. Com os pequenos pedaços de tecido, as mulheres cosiam roupas infantis ou confeccionavam colchas, emendando os retalhos.

Elas passaram a vender seus produtos pelas ruas e, aos poucos, migraram para as feiras. A produção cresceu tanto que logo desbancou a confecção de calçados - a principal manufatura da cidade até então - e acabou atraindo também os homens para o negócio. O investimento no setor feito na década de 1960 foi decisivo para a consolidação e expansão da produção. Nesse período, o Banco do Brasil inaugurou uma agência na cidade, gerando um grande volume de empréstimos para a compra de maquinário mais moderno. Segundo o livro Muito Além das Feiras da Sulanca, de Sônia Lira (2011), a multinacional alemã PFAFF chegou a enviar técnicos à cidade na década seguinte para verificar a razão da venda de tantas máquinas de costura. De tão jocoso, o fato é repetido entre os moradores, ganhando um tom de lenda urbana.

Costureiras da década de 1960 vendendo produtos feitos de retalhos (Foto: arquivo da cidade)

Hoje, as dez cidades do polo industrial (Santa Cruz, Caruaru, Toritama, Surubim, Brejo da Madre de Deus, Agrestina, Cupira, Vertentes, Riacho das Almas e Taquaritinga do Norte) contam com mais de 140 mil máquinas de costura, bordado e corte e é difícil encontrar em Santa Cruz do Capibaribe uma casa onde não haja máquina de costura. Na cidade, pode até haver quem não saiba manusear uma, mas todos entendem as etapas do processo produtivo. Considerando apenas a população em idade economicamente ativa, 53,8% dos santa-cruzenses se empregam na produção. E mesmo quem não produz, depende da economia de base da cidade para manter o próprio trabalho. Se a "feira" - como ainda é chamada a venda das peças no atacado - vai bem, a família vai ao restaurante, as mulheres ao salão de beleza e a reforma da casa tem andamento.

É na construção civil, aliás, que muito desse crescimento pode ser percebido da forma mais explícita. Pelo menos cinco prédios com mais de dez andares já despontam entre as casas que margeiam a avenida principal. Nos 13 bairros de Santa Cruz, é comum perceber se não casas novas, fachadas recentemente reformadas e com material de boa qualidade. E pelas ruas, além dos muitos carros novos e outros de luxo, a presença massiva de motos já começa a trazer problemas de cidade grande.

O trabalho que era feito pelas antigas costureiras - que incluía o desenvolvimento da peça, modelagem, corte, montagem e venda - fragmentou-se, atraindo pessoas de fora dos limites do município. Considerando apenas o período entre 2000 e 2010, a população de Santa Cruz do Capibaribe cresceu 48,3%. A diferença é gritante quando o percentual é comparado aos números de Pernambuco (11,1%), Nordeste (11,2%) e Brasil (12,3%).

A multinacional alemã PFAFF enviou técnicos a Santa Cruz durante a década de 1970 para entender a razão da compra de tantas máquinas de costura no interior de Pernambuco

Atual centro de vendas da cidade (Foto: Luiza Freitas)

Desde 2006, a feira deu lugar ao Moda Center Santa Cruz, o maior shopping atacadista do Brasil. O espaço - que por fora pode lembrar um mall - é, na verdade, uma estrutura mais equipada para a comercialização dos produtos. Mas, como acontece nas feiras, não funciona todos os dias, apenas segundas e terças-feiras, das 7h às 18h. O movimento pode chegar a 100 mil clientes de todo o País por semana na alta temporada (fim do ano). Os valores negociados também são altos: apenas em um evento de cinco dias, realizado em 2013, foram movimentados R$ 10 milhões.

O local foi construído diante das proporções que a feira original tomou. Já na década de 1950, o comércio de roupas cresceu tanto que foi necessário um acordo com os vendedores de alimentos para que os dois negócios acontecessem em dias diferentes. Mas a feira continuou em expansão e em 2000 já tomava praticamente todas as ruas do centro da cidade. A atual estrutura fica na PE-160, mais afastada do antigo ponto, com 9.624 boxes e mais 707 lojas, divididos em seis módulos de uma área coberta de 120 mil metros quadrados (equivalentes a quase 30 campos de futebol). Há, ainda, estacionamento para 4 mil veículos, 18 dormitórios, posto ambulatorial e restaurantes.

Santa Cruz do Capibaribe

Santa Cruz do Capibaribe possui 335,5 quilômetros quadrados e está localizada no Agreste de Pernambuco, já fazendo limite com a Paraíba. Com seus cerca de 97 mil habitantes, é considerada a terceira maior cidade da região, atrás apenas de Caruaru e Garanhuns.

Quantidade de unidades produtivas

Crescimento da população entre 2000 e 2010

Variação do PIB entre 2000 e 2010

Principais segmentos produzidos em Santa Cruz

População ocupada na produção

Regiões para onde a produção do polo escoa

População economicamente ativa opupada na produção