A líder comunitária
O sonho de deixar a costura e viver da produção rural

Fabiana e amiga observam o futuro terreiro onde pretendem iniciar associação (Fotos: Luiza Freitas)

Os 24 anos de idade de Fabiana Alice da Silva parecem pouco se comparados à quantidade de história que tem para contar. E nem seus planos correspondem à imagem que se costuma construir de uma jovem moradora da zona rural de uma cidade do Agreste pernambucano. Esposa do líder comunitário Israel Moura, 27, mãe de Esther, 6, e costureira há dez anos, ela começa a colocar em prática os planos de criar a Associação de Mulheres Criadoras de Galinha Caipira do município. Seu principal desafio é encorajar as 42 famílias da Vila Magana, onde mora, a investir na produção rural e ter uma opção de sustento além da costura.

"Não tenho prazer em costurar. Aprendi com uma irmã, sou a caçula de nove filhos. Hoje sei costurar em qualquer máquina, tenho três em casa", diz sem muito entusiasmo. A produção domiciliar não é uma constante, ajuda a complementar a renda do marido, que é vendedor no centro de Santa Cruz. No momento, a especialidade de Fabiana é montar casacos de frio e "shorts cotton", pelos quais recebe R$1,50 e R$0,40, respectivamente. As peças são vendidas por R$18 e R$5 no Moda Center, onde Fabiana eventualmente trabalha. "Quando o movimento está bom, às vezes me chamam para ajudar na venda. Eu gosto mais de ir pra lá, de ver gente, do que de costurar", confessa.

A jovem já está na lista de confiança de algumas empresas que faccionam a produção. Dependendo da época e da encomenda, ela consegue tirar até dois salários mínimos em uma semana. "No caso dos shorts, que são mais simples, posso chegar a fazer 500 por dia, às vezes chego a trabalhar das 7h às 22h sem desligar a máquina, só parando para comer e cuidar da casa. Mas isso depende. Recebo a encomenda e tenho um prazo para entregar. Se eu me organizar, não preciso trabalhar sem parar", garante.

O trabalho em casa - como para tantas outras mulheres da cidade - é a forma mais simples de cuidar da filha, mas Fabiana faz questão de deixar Esther longe das máquinas. "Eu não quero que ela costure. Não é desclassificando o trabalho da costureira, claro que numa necessidade ela pode precisar. Mas não quero que ela fique nisso, quero que ela veja que a vida tem muito mais para oferecer", diz com apreensão de mãe. Orgulhosa, Fabiana conta que Esther está começando a aprender a ler e acredita que a novidade está sendo um estímulo para a menina pegar logo o gosto pelos estudos.

Essa, aliás, é uma preocupação que Fabiana também tem para si. "Tenho três irmãos homens e nenhum passou da 4ª série. Eu terminei o ensino médio, mas engravidei logo depois", lamenta. Mesmo assim, ela não ficou parada. Já fez diversos cursos que o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) promove na cidade, capacitações realizadas pela prefeitura do município e planeja entrar no curso de Gestão em Políticas Públicas. Enquanto isso, na ausência do marido, é ela quem toma as rédeas da Associação do Pequenos Produtores Rurais de Magana e Porteira, da qual Israel é presidente.

Entrada da Vila Magana, zona rural de Santa Cruz, onde vivem 42 famílias

E foi numa dessas conversas com a comunidade que surgiu a ideia de criar a própria Associação. O ramo de criação de galinhas é tão deficiente na cidade que todos os ovos adquiridos pela prefeitura para preparar a merenda das escolas são comprados de outras cidades. Por isso, não precisou de muito esforço para conseguir o incentivo do município, que passará a ser o comprador produção. "O problema agora é convencer as mulheres. Eles têm vontade, mas falta confiança para começar a produzir em grande escala", diz.

Fabiana também procura se qualificar para essa nova iniciativa. Com ajuda de vizinhas, recorreu a veterinários para saber a melhor forma de criar as aves, quais os espaços físicos ideais para a criação e entrou em contato com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), para orientar e tranquilizar as demais mulheres da Vila Magana. "Não importa o que disserem, eu só descanso quando conseguir", garante.