Novas gerações
O reflexo do desenvolvimento nas novas gerações

Ana Maria (centro) quis que as filhas Diana e Larissa pudessem descobrir outras vocações (Fotos: Luiza Freitas)

A preocupação de Ana Maria Nunes com o crescimento da cidade em outras áreas se refletiu dentro de casa. "Mantive minhas filhas afastadas da costura, principalmente na infância, para elas terem a oportunidade de crescer e descobrir outras vocações", revela a empresária. O resultado disso é que nem Diana Santana, 29, nem Larissa Santana, 26, dominam uma máquina. Mesmo assim, ainda morando em Santa Cruz do Capibaribe, não é possível fugir da dinâmica imposta pela economia da cidade. A mais velha virou empresária e montou sua própria confecção e a caçula se formou em fisioterapia e trata principalmente de pacientes com lesões provocadas pelo esforço da costura.

"Aqui, os filhos dos pais que têm confecção e condições de pagar uma faculdade fora estão buscando outras áreas. Dos meus amigos mais próximos, só eu trabalho diretamente com confecção", analisa Diana. E nem mesmo ela pensou em montar a própria marca quando foi estudar administração na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) - localizada em Campina Grande, a 1h30 de ônibus de Santa Cruz. Decidiu pelo curso porque tinha familiaridade com negócios, através da dinâmica familiar. "Durante a faculdade você começa a sentir vontade de montar o próprio negócio. Só quando voltei para a cidade que decidi que ficaria no ramo da confecção mesmo", explica. Através de uma sociedade com a mãe, montou a Kadikê.

A irmã de Diana, Larissa, teve os mesmos contatos com a confecção que ela, mas ainda optou por se distanciar mais desse mundo. "Não sei o momento exato que me inclinei para a fisioterapia. Acho até que entrei na faculdade sem saber exatamente o que estava fazendo. Mas o certo é que nunca senti vontade de seguir o ramo da confecção", diz. Durante quatro anos ela morou em João Pessoa para estudar na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), tempo em que a saudade de casa foi a maior dificuldade. "Acho que só quem vive em Santa Cruz é que entende que essa cidade é diferente das outras, com essa dinâmica, esse espírito empreendedor", analisa.

Mas, ao voltar para a cidade, percebeu que era esse diferencial que a manteria conectada à confecção. No posto de saúde onde trabalha, quando o paciente chega se queixando de dores no ombro, costas ou punho, já sabe: trabalha com costura. Mesmo sem intenção, sua experiência se concentra nas LER/Dort (lesões por esforços repetitivos/ distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho). O mesmo acontece no consultório particular que mantém em casa. "No contexto que a gente vive, tudo está associado. Quando a feira é boa, principalmente no fim do ano, as pessoas aproveitam também para se tratar", explica.

A confecção Kadikê foi criada por Diana em sociedade com a mãe

Assim como os outros jovens, as insatisfações com a cidade se dão muito mais pela falta de opções de lazer do que pela falta de trabalho. Diana explica bem: "Santa Cruz tem uma atmosfera de trabalho, trabalho e trabalho. A cabeça aqui é voltada para isso".

O resultado é que não se vê jovens reunidos em praças, não há cinema na cidade e a programação cultural é bastante limitada. Mesmo queixando-se disso demonstrando um certo tédio, Diana diz não ter pretensões de deixar a cidade - onde já consolidou o próprio negócio. "Não vou dizer que não passa na cabeça sair daqui, mas até agora não se tornou uma ideia fixa".

A irmã, no entanto, vive a dúvida de ficar ou partir. Depois de morar quatro anos em uma cidade maior, voltar à rotina de Santa Cruz fica ainda mais difícil diante do desejo de investir na carreira acadêmica. Mas opção de sair de casa e ficar longe da família não é, para ela, algo sedutor. "A gente também tem que pensar no futuro. Não quero que meus filhos, quando chegar a hora de ir para a faculdade, precisem sair de casa e passar pelo que eu passei", pondera.