A empresária
Da máquina para a feira, da confecção para os negócios

Ana Maria Nunes começou a costurar aos 10 anos (Foto: Luiza Freitas)

A história de Ana Maria Nunes, 47 anos, é o retrato de muitas outras mulheres de Santa Cruz do Capibaribe que tiveram sucesso através da costura. A microempresária que chega a produzir cinco mil peças por mês aprendeu o ofício de costureira aos 10 anos, quando a atividade já era consolidada na cidade. E é sua experiência diante da máquina e na gestão dos negócios que lhe garante uma visão crítica sobre o crescimento meteórico da cidade onde sempre viveu. Para Ana Maria, Santa Cruz não pode ser feita apenas de costureiras.

Tanto a montagem das peças quanto as negociações das encomendas foram sendo absorvidas por Ana Maria tão naturalmente que aos 14 ela já tinha a própria produção. Como aconteceu com os outros 13 irmãos, aprendeu a costurar vendo Dona Zéza, sua mãe, "trabalhar de ganho" - como era chamada a produção por facções naquela época. Também muito pequena viajava com os irmãos mais velhos para as cidades vizinhas, onde vendiam parte da produção familiar.

Por volta dos 11 anos, Ana deixou a casa na zona rural e foi morar com algumas irmãs mais velhas no centro de Santa Cruz para continuar os estudos. Enquanto tocava o equivalente hoje ao ensino fundamental 2, continuou costurando, agora para as irmãs, e ia à feira vender o que era produzido. Aos poucos foi criando seus próprios modelos e conquistando clientela. "Na minha juventude eu fui aumentando a quantidade de peças até sentir a necessidade de me formalizar, implementar a confecção e melhorar o produto", conta.

Ao criar o nome da marca, ela procurou algo que transmitisse à cidade e aos clientes um pouco da sua forma de ver o mundo. "Queria passar uma mensagem altruísta, que valorizasse a diversidade, o não preconceito e contra a discriminação no País. Foi aí que cheguei à Multi Raça", explica. Assim, quando casou aos 17 anos, Ana já tinha a própria empresa registrada, e mesmo que o marido também trabalhasse no ramo, fez questão de manter a marca. "As mulheres daqui se destacam, têm isso no sangue, a garra de trabalhar e não esperar pelo marido. É claro que os homens tiveram participação importante nesse processo e ainda têm, mas acho que as mulheres de SantaCruz são diferentes", opina.

Ana Maria também é sócia da confecção Kadikê, que pertence à filha mais velha, Diana Santana, 29. A confecção de ambas funciona com apenas dois funcionários fixos, no térreo da casa onde vivem. Mas não foi sempre assim. "O difícil de ser um microempreendedor é que você carrega tudo nas costas, todo o processo, e fica muito preso. Numa empresa grande são muitas pessoas responsáveis por tudo, aqui não", desabafa. Obedecendo a tendência de toda a cidade, onde não há condições de competir com quem contrata os serviços das facções, a terceirizaçã do serviço inclui corte do tecido, montagem das peças, finalização e acabamento, bordado e estamparia (entenda as etapas no vídeo acima).


Para Ana Maria, além de gerir a empresa, resta criar as peças e, com a ajuda da filha e de uma irmã, desenvolve a modelagem e a peça-piloto. Sua produção criativa foi aprimorada em 2012, quando concluiu o curso de design de moda na Faculdade de Desenvolvimento e Integração Regional (Fadire), que funciona na própria cidade. Mas ela faz questão de dizer que mesmo antes disso nenhuma de suas peças foram copiadas. "Sempre tive uma identidade minha, pensada por mim", diz categórica.

A Multi Raça trabalha apenas com shorts e bermudas femininas, enquanto a Kadikê produz camisas masculinas e camisetas infantis. Juntas, as duas marcas exportam para todo o País, do Rio Grande do Sul ao Pará. Com duas filhas graduadas, casa própria e vida confortável, os anseios de Ana Maria agora são por diminuir o ritmo de trabalho e - assim como acompanhou a explosão de desenvolvimento da terra natal - ver a cidade crescer de outras formas. "De uns dez anos para cá chegaram muitas faculdades na cidade, mas muitas pessoas ainda precisam correr atrás disso. Para uma cidade se desenvolver de maneira mais estruturada ela precisa de profissionais em todas as áreas. Não se pode se desenvolver só economicamente, é preciso oferecer qualidade de vida para a população", argumenta.