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Medo no morro e sufoco no asfalto

Some os 67,43% de áreas de morros aos 23,26% de planícies e temos o desenho do Recife, uma cidade feita de altos e alagados. Seja lá em cima, pertinho do céu, ou cá, embaixo, entre os arranha-céus do asfalto, a chegada das chuvas faz a cidade sofrer. No terceiro dia da série de reportagens sobre as prioridades do recifense, as barreiras e os alagamentos entram na agenda da cidade. Amanhã, o JC aborda a falta de saneamento.

  • Imagem de Morro
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Ciara Carvalho

Entra e sai inverno, as cenas se repetem. Quando não é a barreira que cai, é a rua que alaga. Chuva no Recife é sinônimo de dor, perda, aperreio (para usar uma linguagem bem recifense). Já foi pior, é verdade. Já tiveram muitas mortes. Mas chega junho, julho e a imagem de corpos soterrados, gritos desesperados, volta a tirar o sono dos moradores dos altos. A cidade dorme e acorda com 3.400 pontos de risco espalhados pelas áreas de morros. Isso significa 13.600 pessoas que não conseguem dormir, com medo de não acordar. Lona e gel não bastam. Ajudam, mas não resolvem. O tamanho do desafio pode ser calculado em metros quadrados. Este ano foram colocados mais de 550 mil m² de lona e 5 mil m² de gel. E o medo continua.

“Minha casa fica entre duas barreiras, uma na frente e outra atrás. Há dois meses, colocaram uma lona na parte de trás, mas nem assim eu consigo ficar tranquila, sentir segurança. Quando chove, sinto os pedaços da barreira caindo. Passo as noites em claro”, desabafa a dona de casa Rita Silva, 74 anos, moradora de Nova Descoberta, na Zona Norte do Recife. A construção de muros de arrimo nas encostas é a principal reivindicação de quem vive nos altos do Recife. Na pesquisa realizada pelo Instituto Maurício de Nassau sobre as prioridades do recifense para a cidade, 3% das pessoas ouvidas elegeram as obras em morros e áreas de risco da cidade como ação emergencial do futuro prefeito.

O caminho é longo. No mapeamento feito pela Prefeitura do Recife, já foram construídos 96 muros de arrimos, desde 2009, e outros 41 estão em execução. Obras de drenagem já contabilizam 74 intervenções, enquanto outras 54 estão sendo executadas. Na avaliação de técnicos que atuam na área, mesmo as ações estruturadoras não podem ser pensadas apenas como uma medida pontual, de contenção de encostas. Sônia Medeiros, gerente de Apoio ao Desenvolvimento da Fidem, diz que é preciso fazer o planejamento urbanístico dessas áreas. Esse seria o salto a ser dado. “Não é só o muro de arrimo ou a escadaria. Tem que fazer uma reforma urbana nessas áreas, pensar a acessibilidade para carros, coleta de lixo. Garantir aos morros a mesma oferta de serviços que existe na cidade estruturada”, diz Sônia, que há 12 anos trabalha com o tema.

O futuro prefeito do Recife terá que apostar nessa mesma combinação – planejamento e obras estruturadoras – para enfrentar os históricos pontos de alagamentos que mergulham a cidade no caos em dias de chuva. Quem assumir a gestão, a partir de 1º de janeiro, terá em mãos a missão de formatar o Plano Diretor de Gestão, Manejo das Águas Pluviais e Drenagem Urbana, que começou a ser gestado este ano. A licitação para realização do estudo foi concluída e a assinatura da ordem de serviço deverá ocorrer nos próximos dias.

“O levantamento de todos os pontos de alagamento da cidade vai nortear e dar as diretrizes das obras de drenagem urbana do Recife. Com isso, identificaremos soluções globais e não fragmentadas”, afirma o presidente da Empresa de Limpeza Urbana do Recife (Emlurb), Fernando Melo. O plano vai apontar a capacidade de escoamento dos canais e de absorção dos rios que cortam o município. Como a execução deverá demorar dois anos, ficará a cargo do próximo prefeito tirá-lo do papel. E, mais ainda, negociar com a Câmara de Vereadores a aprovação do texto, já que a ideia é que as diretrizes apontadas pelo estudo sejam transformadas em lei.


A vida no morro

A Zona Norte do Recife registra o maior número de ocorrências referentes a deslizamentos de barreiras na capital. Uma realidade de receio e medo. A convite do NE10, o rapper e embolador Zé Brown, morador do Alto José do Pinho, faz as vezes de repórter e mostra os perigos e problemas de quem vê a cidade do alto.